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poema Lição de Poesia

Roteiro de aula

Na sala de aula

Aula 04

Lição de Poesia

João Cabral de Melo Neto


Toda a manhã consumida
como um sol imóvel
diante da folha em branco:
princípio do mundo, lua nova.

Já não podias desenhar
Sequer uma linha;
Um nome, sequer uma flor
Desabrochava no verão da mesa:

Nem no meio-dia iluminado,
Cada dia comprado,
Do papel, que pode aceitar
Contudo, qualquer mundo.

A noite inteira o poeta
em sua mesa, tentando
salvar da morte os monstros
germinados em seu tinteiro.

Monstros, bichos, fantasmas
De palavras, circulando,
Urinando sobre o papel,
Sujando-o com seu carvão.

Carvão de lápis, carvão
De idéia fixa, carvão
Da emoção extinta, carvão
Consumido nos sonhos.

A luta branca sobre o papel
Que o poeta evita,
Luta branca onde corre o sangue
De suas veias de água salgada.

A física do susto percebida
Entre os gestos diários;
Susto das coisas jamais pousadas
Porém imóveis – naturezas vivas.

E as vinte palavra recolhidas
Nas águas salgadas do poeta
E de que se servirá o poeta
Em sua máquina útil.

Vinte palavra sempre as mesmas
De que conhece o funcionamento,
A evaporação, a densidade
Menor que a do ar.

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