Documentário
Transcrição de
José de Alencar, o Múltiplo
Narrador – José de Alencar é
o primeiro grande escritor brasileiro, porque foi o primeiro a
criar o programa de uma literatura que revelasse o Brasil.
Valéria de Marco: O Alencar tem um projeto de literatura
e um projeto de teatro, que é também um projeto
de discussão política daquele país que estava
saindo da Independência.
Narrador – Cearense, foi escritor de romances e peças de teatro, ensaios e crônicas, além de ter sido político e jurista, contribuindo com textos sobre a filosofia do direito e a organização social.
Eduardo Portella – O José de Alencar é um Brasil ainda de ensaio geral, de pré-estréia.
Flávio Aguiar – Ele achava que estava realmente construindo o Brasil e, aqui entre nós, ele estava mesmo.
Narrador – José de Alencar foi muitos, foi múltiplo.
Homem – E quando a primeiro de maio, do ano de 1829, nascia o primeiro filho do casal, o primogênito José Martiniano de Alencar Júnior.
Narrador – José Martiniano de Alencar Júnior nasceu em 1o de maio de 1829, nessa casa em Messejana, um pequeno lugarejo na periferia de Fortaleza. Ele foi o primeiro filho de José Martiniano de Alencar, um padre católico que se tornou deputado federal, e de Dona Ana Josephina de Alencar, uma prima-irmã de seu pai.
Homem – Esta é a cozinha da Dona Ana Josephina de Alencar.
Narrador – José de Alencar desembarcou aqui no porto do Rio de Janeiro, com um ano de idade. Ele vinha com seu pai, que tinha sido eleito Senador do Império do Brasil. Ele passou, provavelmente, a sua primeira infância brincando aqui no Paço Imperial, talvez com o Príncipe Herdeiro Pedro de Alcântara, que só tinha três anos mais do que ele. Quando Pedro de Alcântara teve a sua maioridade antecipada e foi coroado Imperador do Brasil, José de Alencar tinha onze anos e cursava a escola de instrução elementar da cidade. Em 1836, o pai de Alencar foi nomeado governador do Ceará e ele voltou a viver em Fortaleza. Entre os sete e os onze anos de vida, Alencar conviveu com a natureza exuberante de sua terra natal. Com quinze anos, Cazuza, como Alencar era conhecido pela família na meninice, veio para São Paulo acompanhando um primo e foi morar na Rua São Bento. Durante dois anos ele freqüentou o curso preparatório aqui, na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, onde viria depois a se formar como advogado. Nos anos passados em São Paulo, reuniu as energias intelectuais que o guiariam na sua atribulada e sensacional trajetória. Com os ensinamentos jurídicos, transformou-se em um profissional respeitado; depois político, jurista e filósofo do Direito. Com as leituras dos grandes romances e peças francesas da época, realizadas no recolhimento de um cotidiano em São Paulo, distante das tavernas e das farras, transformou-se em um culto e ambicioso jovem escritor, pronto a estrear nas letras nacionais.
João Roberto Faria – Nós estamos em 1854. Alencar tinha acabado o curso na Faculdade de Direito aqui em São Paulo e foi morar no Rio de Janeiro para trabalhar como advogado, e recebeu um convite de um amigo dos tempos da Faculdade de Direito. O amigo se chamava Francisco Otaviano de Almeida Rosa e era o cronista do Correio Mercantil; Alencar o substituiu e criou, no rodapé do Correio Mercantil, uma sessão chamada Ao Correr da Pena.
Narrador – Trecho de José de Alencar: “Há de haver muita gente que não acreditará no meu conto fantástico, mas isto me é indiferente, convencido como estou de que aquilo que se escreve ao correr da pena deve ser lido ao correr dos olhos”.
João Roberto Faria – Havia uma necessidade de que se escrevesse com leveza, com clareza e que se escrevesse, nesse folhetim, uma espécie de resenha dos assuntos que foram importantes ao longo da semana. Então, por exemplo, o Alencar podia num mesmo folhetim escrever sobre a guerra da Criméia ou sobre a chegada das máquinas de costura no Rio de Janeiro. Em seguida, tinha que falar sobre a estréia de uma ópera ou sobre um fato político. Enfim, o desafio era unir os acontecimentos importantes e num estilo que fosse leve e claro o suficiente para prender os seus leitores. Isso ele conseguiu com extraordinário sucesso, tanto que, menos de um ano depois de se projetar como folhetinista do Correio Mercantil, ele foi convidado a assumir um posto de redator-chefe de um outro jornal que havia no Rio de Janeiro, chamado Diário do Rio de Janeiro.
Valéria De Marco – Quando ele muda para o outro jornal, começa também a escrever folhetim, certamente observando que isto era um lugar extremamente procurado no jornal. Com muita freqüência, era uma historinha de amor, e ali estavam reunidas as pessoas para esperar como é que a história ia continuar no dia seguinte. Então, era um instrumento importante de sociabilidade, de discussão do que estava acontecendo no momento e, ao mesmo tempo, de venda do jornal.
João Roberto Faria – O desafio de Alencar era aumentar a tiragem do jornal, porque quando ele assumiu o Diário do Rio de Janeiro, esse era um jornal que não estava numa boa situação econômica. Pensando em atrair mais leitores para o jornal, Alencar resolveu então escrever romances que seriam publicados no rodapé do jornal e oferecidos como brinde aos seus leitores. Seu grande sucesso foi lançar, entre janeiro e abril de 1857, em folhetins, o romance “O Guarani”. Nesse sentido, Alencar aprendeu muito rápido o que nós podemos chamar de técnica do folhetim, que é utilizada hoje na novela, na televisão. Ou seja, cada capítulo deve terminar de forma a provocar no leitor uma curiosidade para o capítulo seguinte.
Valéria De Marco – Na sua história, o romance sempre foi lido em salas de leituras. Então, o próprio Alencar conta, num texto que ele escreveu em Como e Porque Sou Romancista, que quando ele era menino, enquanto os homens discutiam política na sala da frente, ele ficava com as mulheres e lia em voz alta os romances. Quer dizer, o livro era um objeto caro. Então, o jornal de fato veio ampliar o público. Esta sala em que se lia o romance na forma de livro, passou a ser a sala onde se lia o romance na forma de jornal. Cada número do jornal supunha muito mais leitores do que aquele que de fato comprava ou assinava o jornal.
Narrador – Em 1858, um ano depois de estrear como romancista, Alencar, numa maré de muita produtividade, viu encenada no Teatro Ginásio do Rio de Janeiro a sua primeira peça teatral, Verso e Reverso. Nos quatro anos seguintes, entre os seus 28 e 32 anos de vida, ele escreveu nove peças de teatro. Estamos aqui no Teatro José de Alencar, de Fortaleza. Uma homenagem dos cearenses ao seu escritor mais ilustre.
João Roberto Faria – Em 1857, Alencar escreveu quatro peças: O Rio de Janeiro - Verso e Reverso, O Demônio Familiar, O Crédito e As Asas de um Anjo. As duas primeiras fizeram sucesso, principalmente a segunda. O Demônio Familiar foi o grande sucesso do Alencar nessa época. O Crédito foi um fracasso enorme que o desestimulou, deixou-o desanimado em relação ao teatro. E como ele já tinha essa quarta peça pronta, (As Asas de um Anjo), ele fez uma dedicatória ao Conservatório Dramático dizendo que era a última peça que ele havia escrito, e meio que se despedindo do teatro.
Narrador – A peça As Asas de um Anjo foi censurada, talvez porque conte a história de uma mulher adúltera que se prostitui, mas no fim acaba regenerada. A história se baseava na peça de Alexandre Dumas Filho, A Dama das Camélias, que todo mundo na corte já conhecia. Mas, depois de três apresentações, o espetáculo foi proibido sob a alegação de imoralidade. Alencar sempre disse que a censura só aconteceu porque ele era um autor nacional e a estes não se davam as liberdades temáticas que nos escritores estrangeiros eram admitidas.
Narrador – Trecho de artigo de José de Alencar: “Esqueci-me, porém, que tinha contra mim um grande defeito, e era ser a comédia produção de um autor brasileiro e sobre costumes nacionais. Esqueci-me que o véu, que para certas pessoas encobre a chaga da sociedade estrangeira, rompia-se quando se tratava de esboçar a nossa própria sociedade”.
Narrador – Fosse pelo que fosse a censura, a peça As Asas de um Anjo não foi mais encenada. Esse aborrecimento abalou Alencar, mas não foi suficiente, ainda, para afastá-lo de forma definitiva do teatro. Em 1875, dois anos antes de morrer, escreveu sob medida para João Caetano, o grande ator brasileiro da época, O Jesuíta, uma peça histórica feita para a comemoração do 7 de Setembro, no Teatro São Pedro de Alcântara, o principal teatro do império naquele momento. O Jesuíta é uma peça histórica num modelo romântico que Alencar julgava talhada para o João Caetano. Mas o ator não se viu bem projetado no personagem e recusou a peça. A montagem que foi realizada desagradou Alencar e foi totalmente ignorada pela sociedade carioca. Essa decepção selou a experiência de José de Alencar com o teatro e ele se afastou para sempre dos palcos.
Narrador – Trecho de prefácio de José de Alencar ao Jesuíta: “É triste e deplorável que nesta cidade de trezentas mil almas, capital do Império Brasileiro, haja um público entusiasta para aplaudir as glórias alheias e não apareça nem a sombra dele quando se trata da nossa história, de nossas tradições, de nossos costumes, do que é a nossa alma do povo”.
Flávio Aguiar – O João Caetano provavelmente não se entusiasmou com o papel, não quis representar, ele, pessoalmente. E eu acho que isso também acabou ferindo enormemente o Alencar. O Alencar tinha esse lado também, ele só enxergava seu próprio projeto. Ele era assim, inteiramente tomado por essa idéia de fazer do Brasil um país extraordinário. Ele não via também que, muitas vezes, ele feria as pessoas, e ele sempre foi muito crítico, como jornalista, do tipo de espetáculo que o João Caetano fazia. Eu não sei se isso pesou na decisão de João Caetano, ou se também ele simplesmente não se deixou encantar pela peça.
Narrador – Onde hoje está o Palácio Tiradentes, no século XIX funcionava a Câmara dos Deputados, instalada na antiga cadeia pública. Foi aqui que José de Alencar desenvolveu uma carreira política de sucesso como deputado e que o levou, inclusive, a ser o Ministro da Justiça por dois anos, entre 1868 e 1870. Um velho conhecido de Alencar, o Imperador Pedro II, foi o responsável por que ele sofresse também na política uma grande desilusão. O seu pai tinha sido Senador e ele também pretendeu, nos anos que foi Ministro, concorrer a uma vaga no Senado. Na época, um colégio eleitoral elegia três nomes para que o Imperador escolhesse um. Mesmo tendo sido o mais votado na lista de três nomes, Alencar não mereceu o apoio do Imperador. Ele nunca perdoou Pedro II pela desfeita.
Flávio Aguiar – Era perfeitamente previsível que Dom Pedro não o escolheria como Senador. Ele tinha todas as razões. Tinha razões pessoais, por essas desavenças; tinha razões políticas, porque Alencar, mesmo sendo do Partido Conservador, era um homem de extrema independência. Portanto, politicamente, Dom Pedro não podia confiar em Alencar. Não sabia o que ia sair da cabeça do Alencar. Era difícil de prever.
Narrador – Depois dessa desilusão política, José de Alencar aposentou os seus talentos de tribuno e de homem público, afastando-se do debate que fervilhava aqui no Paço Imperial. Ele retirou-se para a chácara que possuía na Tijuca, e lá ainda produziu nos últimos sete anos de vida uma série de novos romances.
Valéria de Marco – Na verdade, a escolha do Alencar, se a gente vê a produção do Alencar também colocada na cronologia, ele optou pelo romance. Ele deixou de fazer o teatro e se concentrou no romance. Para cada face do Brasil ele criou uma narrativa, ele criou uma história. E essa história, ele trabalha de um modo um pouco diferente em cada um desses temas. Mas o projeto se articula, fundamentalmente, com essa intenção do Alencar. Quer dizer, o Alencar é um escritor programático. Ele, de fato, tinha um programa de fundar a literatura nacional. A literatura brasileira.
Narrador - Um dos pontos favoritos de Alencar, aqui na Floresta da Tijuca, era a Vista Chinesa. Em 1868, numa carta a Machado de Assis, em que recomenda o portador, o jovem poeta baiano Castro Alves, ele comenta o prazer que teve em apresentar ao visitante esta vista maravilhosa.
Narrador – Trecho da carta de José de Alencar a Machado de Assis: “Para as bandas da Gávea, há um lugar que chamam Vista Chinesa, este nome lembra-lhe naturalmente um sonho oriental, pintado em papel de arroz. É uma tela sublime, uma decoração magnífica deste inimitável cenário fluminense”.
Narrador – A imaginação sempre foi um dos pontos fortes da literatura de José de Alencar, e onde ela se manifestou a primeira vez, de forma mais característica, foi em um dos folhetins que ele publicou no Diário do Rio de Janeiro. Eles foram o primeiro exemplo de um romance brasileiro que teve como tema a miscigenação entre os colonizadores portugueses e a população original dos índios. Este romance é O Guarani. O Guarani é uma história que se passa no Brasil no início do século XVII. O lugar é o sertão do Estado do Rio de Janeiro, na Serra dos Órgãos, às margens de um dos afluentes do Rio Paraíba, o Paquequer. O herói principal é Peri, um índio guarani. Quando a ação começa, ele está a um ano morando na fortaleza do fidalgo português Dom Antônio de Mariz, outro personagem importante. Peri é apaixonado por Cecília, filha de Dom Antônio de Mariz, a quem chama de Ceci. Ceci é loura, de olhos azuis, e tem em relação a Peri sentimentos contraditórios. Algumas vezes o trata como um bicho de estimação, pedindo-lhe coisas aparentemente impossíveis. Em outras, emocionada com a pureza do índio, percebe nele um homem vigoroso e admirável.
Valéria de Marco – O Guarani, começa com dois heróis, o Dom Antônio de Mariz que é o herói português, da ética, da dignidade, da fidelidade. E no O Guarani inteiro, a gente vai ver é como é que o Peri é capaz de superar em seu poder de ação, em seu talhe heróico, essa capacidade heróica que tem Dom Antônio de Mariz. Quer dizer, e o que é que o Peri tem? Ele domina a natureza, ele tem um outro saber, que é necessário. Dom Antônio de Mariz tem o saber dos portugueses. Sabe construir a casa, sabe plantar. Mas o Peri conhece a natureza, os poderes todos das árvores, onde ele vai conseguir ressuscitar. Depois o Peri está envenenado, mas ele sabe o contraveneno. Então, ele é herói porque ele conhece.
Narrador – Peri realiza ao longo do romance uma série de coisas. A pedido de Ceci domina uma onça e a aprisiona em cordas. Precipita-se numa encosta cheia de cobras venenosas para recuperar a bolsinha de Ceci. Impede que Loredano toque no rosto de Ceci enquanto ela dorme acertando uma flecha e fixando a mão do vilão na parede. Lança-se de uma árvore para interceptar com o próprio corpo flecha endereçada a Ceci. Enfrenta sozinho dezenas de Aimorés e envenena-se sabendo que seria devorado em um banquete canibal, esperando com isso exterminar toda a tribo que ameaçava Ceci e sua família. Salva Ceci da destruição da fortaleza de Dom Antônio, escapando com ela pelos cipós das árvores. Arranca do solo uma palmeira para sobreviver com Ceci ao dilúvio.
Valéria de Marco – Alguns romances que são considerados indianistas, o que eles estão fazendo? Eles estão contando a história do passado do Brasil. O Ubirajara vai contar a história mais primitiva, quer dizer, de quando os índios estavam aqui neste território sem o contato com o branco. O contato casual com o branco está na Iracema. E O Guarani é o que tem de fato uma leitura de um processo de colonização. Quer dizer, ali que tem a noção de cultura, de construção. Ali se cultiva uma mescla do português e do índio para projetar o futuro. É por isso que O Guarani começa numa casa talhado ao estilo medieval, e isso depois vai para o mito de fundação. O mito do dilúvio é o mito de fundação da raça.
Narrador – Trecho do romance O Guarani: “Peri, alucinado, suspendeu-se aos cipós que se entrelaçavam pelos ramos das árvores já cobertos de água, e com um esforço desesperado, cingindo o tronco da palmeira nos seus braços hirtos, abalou-o até as raízes. A cúpula da palmeira, em balançando-se graciosamente, resvalou pela flor da água como um ninho de garças ou alguma ilha flutuante formada pelas vegetações aquáticas. A palmeira, arrancada pela torrente impetuosa, fugia, e sumiu-se no horizonte”.
Eduardo Portella – Pres. Fundação Biblioteca Nacional – RJ – Há um componente de idealização do índio, sem dúvida alguma. Aquele índio não é exatamente um índio fotografado, mas o índio que é imaginado por Alencar parte do índio verdadeiro. Só que há umas espécies de retoques imaginários do índio, porque o índio já estava saindo da circunscrição da sua cultura, o espaço quase fechado da sua cultura, àquela época, para viver no grande espaço nacional. Então, este é um índio simultaneamente real e fabulado.
Valéria de Marco – Profª. Literatura USP – SP – Ele tem o conhecimento da natureza e tem o conhecimento da cultura que foi desenvolvida nessa natureza. Então, ele sabe contar o mito do dilúvio. Quer dizer, porque que ele se salva? Ele salva a Ceci. Porque ele sabe qual é a história. Então, ele consegue dominar a natureza e, como ele sabe a narrativa indígena, ele sabe também se salvar e salvar Ceci.
Narrador – O Guarani é uma história emocionante, em que a gente vira cada página ansioso pelo que vem depois. Uma história tão boa de contar que 13 anos depois da publicação do romance em folhetins, o compositor brasileiro Antônio Carlos Gomes, estudando na Itália, encomendou um libreto baseado na obra de Alencar, e compôs a sua ópera mais importante.
Lauro Machado Coelho – Crítico de Música: O Guarani foi um grande sucesso desde a primeira noite. Ela foi, sem dúvida nenhuma, a ópera de Carlos Gomes que mais sucesso obteve e que mais vezes foi reapresentada. E esse sucesso foi imediato. Na verdade, ele se apoderou do romance e o adaptou sem sequer ter pedido autorização do Alencar. A coisa foi feita e o Alencar, na verdade, não gostou muito do resultado e, ele diz uma coisa muito curiosa: “Apesar de tudo, graças à beleza da música de Carlos Gomes, no futuro ainda vão ler o meu livro”. Ele faz essa previsão: “Se no futuro se lembrarem do meu livro é por causa da beleza da música dessa obra”.
Narrador – Os romances, as peças, as crônicas e os tratados jurídicos que Alencar escreveu profetizam a independência cultural e artística do Brasil. Ele foi não só o pai do romance brasileiro, como o primeiro a afirmar de forma tão eclética e em tantas direções a necessidade de uma literatura brasileira.
João Roberto Faria – Nós temos que incutir no leitor contemporâneo a noção de tradição literária. Ou seja, os nossos escritores românticos tinham um projeto que era dotar o país de uma nacionalidade literária. Então, Alencar é um escritor central nesse processo de construir uma literatura brasileira. Acredito que uma boa parte da obra do Alencar ainda pode ser lida hoje com muito prazer. Um bom professor de literatura deve chamar a atenção dos aspectos da obra do Alencar que ainda hoje podem encantar.
Flávio Aguiar – Prof. de Literatura Brasileira USP – SP – O Alencar, muito provavelmente, é uma das personalidades mais brilhantes da História do Brasil. E eu comparo assim. Eu diria que se o Machado de Assis pode ser considerado o nosso Pelé em relação à literatura do século XIX, sem dúvida nenhuma o Alencar é o nosso Didi. Quer dizer, era o homem que tinha visão de campo, que organizava o time. O Alencar mapeou o Brasil, e isso não é pouca coisa.
